quinta-feira, 10 de julho de 2014

Entrevista de Maio - Homero Vasques Rodrigues

Homero Vasques Rodrigues é Historiador formado pela Faculdade Católica de Pelotas (hoje Universidade Católica de Pelotas – UCPel) de 1959-1963.

1. Que impulso pode trazer para a educação do município de Santa Vitória do Palmar, onde esta lotado, a chegada de uma Universidade Federal reconhecida como a FURG?

Quanto mais instituições educacionais chegarem em nossa terra, maiores oportunidades teremos, principalmente, na evolução da juventude santa-vitoriense e, ainda, sendo a FURG uma referência de ensino em todo o Brasil, uma escola que apresenta cursos contínuos e presenciais, só poderá proporcionar o crescimento desta fronteira tão distante dos centros de saber e trabalho.

2. Que mudanças podem surgir na região com a formação de futuros profissionais de turismo?

Sendo o ambiente local propício para o desenvolvimento do turismo é lógico acreditar nas potencialidades do meio e da escola. Esta fronteira viva unida por duas avenidas que já seus nomes evocam a cordialidade e o interesse de progredir.

3. Quais, na sua visão, devem ser os pontos principais de Santa Vitória do Palmar e região a serem explorados turisticamente?

O meio geográfico e a posição. A riqueza natural dessa planície e os recursos hídricos que apresenta proporcionam um filão a ser explorado nessa maneira de ser da região, sem nunca esquecer que a psicologia do homem que habita o meio é de fundamental importância para atrair viajantes que não estão afeitos a uma natureza exuberante, mas, principalmente, com uma maneira totalmente distinta das que os turistas do norte estão acostumados a ver cotidianamente.

4. De acordo com sua vasta experiência com a história da região de Santa Vitória do Palmar, que fatores históricos se destacam, como futuros potenciais a serem formatados e explorados pelo segmento turístico?

A exploração do passado histórico que envolve os habitantes, principalmente os militares e colonizadores que vieram, os espanhóis pelo sul e os lusitanos do norte, criando uma maneira de compartilhar da ação bélica que por mais de 300 anos forjaram as nacionalidades locais. Poucos cenários do planeta apresentam uma configuração guerreira que num raio de mais de 3 (três) mil quilômetros viram surgir tantas praças castrenses de ambos os contendores e que hoje atestam o passado da armas e o futuro de paz, com seus caminhos estratégicos e as fortalezas que atestam o desejo de posse e o surgimento de grandes núcleos que, de praças de lutas, transformaram-se em centros urbanos de progresso, onde ficam as maiores cidades do continente sul-americano.

5. Como considera que possam ser atraídos para Santa Vitória do Palmar, parte dos tantos turistas que passam permanentemente pela BR 471?

A pergunta anterior já especifica a formação histórica desse ambiente, fazendo com que, a história, bem estudada, sirva de rumos para o desenvolvimento e harmonia dos povos. Não parece que a Região do Prata e da Província de São Pedro e depois, o Estado Brasileiro com o Uruguai, saíram de pugnas que fracionaram seus territórios e suas gentes, hoje amalgamadas no processo de desenvolvimento, ligados pelos costumes, língua e religião.

O fogo da lenha do eucalipto transformou a maneira de juntar as pessoas desde o fogo de chão e, posteriormente, das lareiras modestas, que, inicialmente, eram aquecidas com o combustível da “bosta da vaca” (fezes de vaca), dada a carência de madeira das árvores.

É de verificar que as maneiras de turismo que apresentam a bacia platina ou os pólos da Serra Gaúcha (Estado do Rio Grande do Sul) já não servem de modelo para implementar o turismo na região. Conforme enfatizei, anteriormente, é de bom alvitre, explorar as particularidades que temos por aqui: a vida campeira e sua maneira de ser é fundamental para a tal atratividade. O cavalo e as maneiras de viver do homem da localidade são importantes para a atração, mesmo que passageiras. As águas, que são muitas, podem ser transformadas em meio de conquista dos passantes com viagens de barcos pelas lagoas abundantes; o dia a dia do ambiente plano e os recursos da flora e da fauna que podem servir de mote para a parada por estas paragens. O ambiente rural e a gastronomia são fatores fundamentais para o ato de descansarem de tão longas viagens. Gosto de referir-me aos produtos da culinária natural, baseando-se na exploração da carne de ovelha, tanto no churrasco, como comidas caseiras, aproveitando o arroz que é um dos melhores do país, mais a influência dos imigrantes, tanto árabes, que são consumidores dessa carne e, principalmente, dos italianos que mesclaram as formas de fazer os embutidos, em especial, a “lingüiça”, que no meu modo de ver e sentir foram misturados desde a península européia com os recursos naturais locais. O ensopado de massa (italiano) com a carne ovina local é um produto muito consumido e do agrado de todos.

6. Na sua visão, como o desenvolvimento turístico da região pode favorecer a população local?

A qualificação das pessoas será mais uma fonte de trabalho que, se explorada as potencialidades regionais, transformar-se-ão num centro de agrupamento das pessoas que deterão a capacidade técnica para incrementar o turismo.
A história regional, mas principalmente a local, pode e deve estar na vanguarda da criação do novo espírito da atuação profissional. De nada adianta imitarmos culturas alienígenas distantes, em especial dos grandes centros fora da região e, mais ainda, do poderoso impacto da cultura americana que nada diz aos nossos sentimentos e gostos.

7. Como entende que deva acontecer o desenvolvimento turístico em Santa Vitória do Palmar?

Também já foi especificada a maneira de aproveitarmos os recursos do ambiente, mesmo que sejam modestos e simples. Num mundo globalizado onde o vidro e o cimento transformaram a visão de todos, é necessário que, voltando às origens, possamos atrair gente sequiosa de verde e natureza. Por esse caminho é que devemos seguir para realizarmos uma polarização em torno do lugar em que vivemos e que, sempre, por mais modesta que seja a razão, atrairá tantos, motivados pelo currículo que nesse instante lugar fará que uma “parada”, mesmo que breve, atrairá pessoas e que, num futuro, serão multiplicadoras daquilo que de bom e exótico viram, sentiram e, em última análise, viveram.

8. Como surgiu a denominação de “Campos Neutrais” para essa região (região que abrange os municípios de Santa Vitória do Palmar e Chuí, bem como parte do município de Rio Grande e de municípios uruguaios)?

As lutas entre as duas potências ibéricas (Portugal e Espanha), por esses lados, eram cada vez mais agudas, tanto lá, como por essas bandas e por esse mesmo motivo havia uma imperiosa necessidade de paz entre eles, caso contrário, as grandes potências do Velho Mundo, estariam sempre subjugando os povos da península. O Tratado de Madri, EM 1750, feito para proporcionar a Concórdia, não agradou a ninguém. As casas reais e a nobreza ficaram insatisfeitas; a igreja (principalmente as Missões religiosas americanas do sul) foram profundamente prejudicadas e, por isso, os casamentos entre membros das famílias reais de ambas as nações eram outros expedientes para provocar o entendimento e, por essa razão, em 1° de outubro de 1777, criaram o Tratado de Santo Ildefonso a fim de regular o contato entre Portugal e Espanha nas paragens sulinas da América e, por ele, ficou estabelecido e uma especificação de distâncias que entre as duas potências haveria uma área fronteiriça que nem lusos nem castelhanos poderiam ocupar. É de entender que se ainda hoje, no Século XXI, não conquistamos as fronteiras agrestes entre os Estados Sul-Americanos, imaginem nos idos de XVIII.

No entanto, nesta região que abarcamos nesse trabalho, graças as condições geográficas foi possível estabelecer limites e que, aproveitando os acidentes geográficos que ficaram assim “local neutro”, onde as potenciais da Europa em questão, não poderiam ocupar e explorar, ficando, assim: ao norte os portugueses não poderiam para a direção sul e desde o Arroio Chuí e São Miguel, os espanhóis não deveriam ultrapassar, mesmo observância deveriam transpassar a Lagoa Mirim ao Oeste e o Oceano Atlântico, ao leste. Este local foi chamado de “Campos Neutrais”.
Quando, em 1821, os portugueses dominaram a Colônia de Sacramento (atual Uruguai) que foi anexada ao Brasil com o nome de Província Cisplatina, a Região Neutral ficou pertencendo ao Império Brasileiro e depois que, em 1828, foi formado o Estado Uruguaio, este recorreu no emprenho que pelo menos a metade desse território lhe pertencesse. Mas a posição inferior que se encontrava a República Oriental do Uruguai, não permitiu que assim fosse e na confecção do Tratado de 1855 para limitar as fronteiras sulinas entre os dois países, ficou o ponto em litígio pertencente ao Brasil. 

9. Como aconteceu a formação do município de Santa Vitória do Palmar ( onde está lotado o Curso de Turismo Binacional da FURG)?

Da questão anterior a área compreendida pelas confrontações dos “Campos Neutrais” ficou pertencendo ao município de Rio Grande, sendo parte do Distrito do Taim. Com a fundação da Povoação de Andréa depois chamada de Santa Vitória (santa de devoção da família do General Andréa, fundador do município, pois a esposa do mesmo chamava-se Germana Vitória e o filho, José da Vitória) do Palmar de Lemos (este, porque o agrupamento de palmas estava nos campos de Lemos), seguindo, Santa Vitória do Palmar do Chuí e , finalmente, Santa Vitória do Palmar.
Devido ao progresso do povoadinho, este passou à categoria de Vila, em 1874, tendo por isso a instalação de uma Câmara que pertencia a cidade Noiva do Mar (Rio Grande). Em 24 de dezembro de 1888, com sua evolução, principalmente por causa do país limítrofe, que dava suporte para um maior intercâmbio, em especial no comércio que tantos uruguaios necessitavam, como a erva-mate, o café, álcool, fumo e cachaça, advindo daí um fulgurante intercâmbio do contrabando, saindo de lá a lã, a carne, animais em pé, etc; esta pequena vila passou a ter foros de município, sendo a urbe transformada em cidade como especificava a Constituição de 1824, a única do Império Brasileiro que ano de 1891 viria a primeira Republicana e cujo fato comentado até hoje ainda persiste.

Desse modo, surgiu o município de Santa Vitória do Palmar, Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, que em 1977 teve uma parte sulina desmembrada formando o atual município do Chuí que, juntamente com Santa Vitória do Palmar, são as partes políticas mais meridionais da Pátria, sendo que a Vila do Chuí foi transformada, seguindo os requintes constitucionais em cidade, a mais austral do Brasil.

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